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Manifestações artísticas

Manifestações artísticas

Mataram a Cotovia, Harper Lee - Ainda não é tempo para nos preocuparmos

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Ano: 1960

Género: Romance, Ficção

Outros do mesmo autor: Vai e Põe uma Sentinela

Editora: Relógio D'Água

Classificação: 9/10

Análise/Review: Mataram a Cotovia reconta a situação existente na época da grande depressão no Sul dos EUA, mais precisamente nos anos 30, sob o ponto de vista de uma criança inocente e ingénua. Ao longo da narrativa, Scout, a personagem principal, vai nos apresentando a sua visão do mundo, expondo temas como o preconceito racial, a educação moral e as desigualdades sociais. Esta exposição fez com que o livro tivesse sucesso imediato, tornando-se um clássico na literatura americana.

 

O enredo e os personagens são baseados na vida da autora e do incidente que ocorreu em Monroeville em Alabama, quando tinha 10 anos. Este incidente consistiu no julgamento de um homem negro, Walter Lett, pelo abuso sexual de uma mulher branca. Apesar da escravatura ter terminado cerca de meio século antes da publicação de To Kill a Mockingbird, os afro-americanos ainda estavam privados dos seus direitos civis básicos. Os negros foram reprimidos pela sociedade do sul, através da segregação física de instalações públicas, e de provisões de serviços e oportunidades. Assim como, naturalmente prevalecia a discriminação dentro do sistema judicial.

 

A história apresenta-nos Atticus Finch, que aparece como um herói e um modelo devido à sua moralidade. Atticus, pai de Scout e Jem, e como um advogado honesto integro, aceita defender Tom Robinson, que foi injustamente acusado de violar uma mulher branca de classe baixa.

O tema da moral está explicito em todo o livro, sendo Atticus Flinch a figura que a transmite. Ironicamente, embora Atticus seja uma figura heróica e um homem respeitado em Maycomb, nem Jem nem Scout admiram no início do romance. Porém, no  final,  é perceptível a evolução dos sentimentos de admiração, em particular de Jem por  Atticus.

 

Têm todo o direito de pensar dessa forma, como também têm o direito a que as suas opiniões sejam respeitadas (...) mas antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio. E a única coisa que se sobrepõe à regra da maioria é a nossa consciência.

 

Para além do enredo principal, isto é o julgamento de Tom, a autora retrata outras situações quotidianas que de uma forma ou de outra se relacionam com o tema central referente ao preconceito e à injustiça racial e social, recorrendo fortemente ao simbolismo para transmitir a esta mensagem. Ora, como figuras simbólicas destaca-se o Boo Radley, o cão enraivecido e cotovia.

 

 À medida que o romance avança, a mudança de atitude das crianças em relação a Boo Radley é um ponto relevante no seu desenvolvimento psicológico, da inocência para uma perspetiva moral adulta. No início do livro, Boo é apenas uma fonte de superstição infantil, enquanto no final do romance, ele torna-se totalmente humano aos olhos de Scout, o que demonstra que a própria protagonista se tornou mais compreensiva e madura.

 

- Jem não está certo andar a perseguir as pessoas, pois não? Ou melhor, ter maus pensamentos sobre alguém, não é? (...) -  Eu ouvi-a dizer que já era altura de alguém lhes dar uma lição, que estavam a exceder-se e que a seguir já iam começar a pensar que podiam casar connosco. Jem como é possível odiar tanto o Hitler e, assim que se voltam as costas, ser-se tão mau para as pessoas da nossa terra...

 

Por sua vez, a doença do cão simboliza o racismo na cidade, que se espalha como uma contaminação e promove a irracionalidade. Assim, como o xerife se recusa a servir a justiça no caso Tom Robinson, ele também se recusa a matar o cão com raiva, incentivando Atticus a combatê-lo no seu lugar.  Atticus ao matá-lo, coloca-se simbolicamente em oposição a esse racismo.

 

Por último, o título Mataram a Cotovia tem muito pouco ligação literal com o enredo do livro, porém acarreta um grande valor simbólico no livro. A referência às cotovias por Atticus e pela Miss Maudie , desvenda este tal significado…

 

Podes matar todos os gaios-azuis que encontrares, isto se lhes conseguires acertar, mas lembra-te de que é pecado matar uma cotovia. (…) – O teu pai tem razão. As Cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós. Não estragam os jardins das pessoas, não faz ninhos nos espigueiro, só sabem cantar com todo o sentimento para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia.

 

A Cotovia representa nada mais nada menos que a inocência. No decorrer da leitura é possível identificar várias personagens como a cotovia, não só o Tom Robinson, como também o Boo Radley e o Sr. Raymond, que são vítimas inocentes sujeitas a preconceitos irracionais e a hostilidade da sociedade.

 

Resumidamente, Mataram a Cotovia prende o leitor numa realidade dura e amarga de uma forma leve, sendo todo o livro uma lição de vida (tolerância, justiça, preconceito e coragem). Cada personagem e cada acontecimento acrescentaram cor e profundidade ao enredo, pelo que posso dizer que sem dúvida, Mataram a Cotovia ganhou um lugar especial na minha estante. Desta forma, considero que seja uma obra de leitura "obrigatória", especialmente para jovens, de modo a entenderem o valor do respeito.

 

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